Petróleo dispara com retomada dos ataques no Estreito de Ormuz
O mercado global de energia voltou ao modo de crise. O petróleo Brent avançou 4,75% no primeiro dia de setembro, sendo negociado a US$ 94,89 por barril, enquanto o WTI subia 5,46%, cotado a US$ 90,36. O movimento amplia os ganhos anteriores, quando os contratos já haviam fechado com elevação próxima de 3%.
O gatilho foi a retomada dos ataques diretos entre Estados Unidos e Irã no Estreito de Ormuz, os primeiros desde o fim de julho, em um conflito que completa agora seis meses sem sinais de avanço nas negociações para reabertura definitiva da rota.
Para o comércio exterior brasileiro, que vinha se beneficiando da relativa estabilização dos preços da energia ao longo de agosto, o retorno do prêmio de risco ao barril traz efeitos concretos que se propagam rapidamente pela cadeia logística.
O que aconteceu: a escalada do fim de semana
No dia 30 de agosto, forças americanas atingiram dois lançadores de foguetes na ilha iraniana de Larak, no Estreito de Ormuz. Segundo o Comando Central dos Estados Unidos, integrantes da Guarda Revolucionária Islâmica preparavam foguetes equipados com minas marítimas para lançamento no estreito, situação classificada por Washington como ameaça iminente à navegação comercial.
Em resposta, a Guarda Revolucionária informou ter atacado duas bases aéreas americanas na Jordânia. O governo jordaniano relatou que seus sistemas de defesa interceptaram oito mísseis que entraram no espaço aéreo do país, sem registro de danos ou vítimas. O Irã também declarou ter realizado ataques com drones contra uma base americana nos Emirados Árabes Unidos, informação que não teve confirmação independente.
O presidente iraniano afirmou que o país não pretende iniciar uma guerra, mas responderá a ataques contra seu território.
O ataque a navio comercial que elevou o alerta
O episódio de maior impacto direto sobre a navegação ocorreu na manhã de 31 de agosto. Um navio-tanque foi atingido por três projéteis de origem não identificada enquanto atravessava o Estreito de Ormuz, segundo informe da United Kingdom Maritime Trade Operations. A embarcação navegava pelo corredor sul, próximo à costa de Omã. Não houve registro de vítimas.
A ausência de autoria definida ampliou a cautela entre operadores. Em ambientes de conflito marítimo, a imprevisibilidade sobre a origem dos ataques é frequentemente mais paralisante do que a ameaça declarada, porque impede o cálculo de risco por rota, bandeira ou tipo de carga.
O reflexo nos dados de tráfego é direto: apenas cinco navios de commodities por dia cruzaram a passagem durante o fim de semana, sinalizando que operadores estão evitando ativamente a região. Em condições normais, o estreito registra dezenas de travessias diárias.
Por que o mercado reagiu com tanta intensidade
Três fatores explicam a magnitude da alta:
- O primeiro é o risco de interrupção de fornecimento. Antes do início do conflito, aproximadamente um quinto do petróleo e do gás consumidos no mundo transitava pelo Estreito de Ormuz. Qualquer sinal de que a passagem pode ser novamente bloqueada, ou minada, reintroduz imediatamente o prêmio de risco no barril.
- O segundo é a pressão sobre a capacidade de refino. Ataques a refinarias no Oriente Médio e na Rússia ampliaram as restrições à capacidade de processamento, levando as margens dos produtos refinados a novos recordes. Esse ponto é crucial e frequentemente subestimado: o custo do diesel, da gasolina e do querosene de aviação não depende apenas do preço do petróleo bruto, mas também da capacidade disponível de transformá-lo em derivados.
- O terceiro é a baixa liquidez do mercado no momento da escalada, com o Reino Unido em feriado, condição que amplifica movimentos de preço.
Analistas de mercado avaliam que o risco de abastecimento deve persistir e que os estoques globais de petróleo tendem a continuar diminuindo nas próximas semanas. A leitura predominante é de que a crise alterou de forma duradoura o status quo de segurança no Oriente Médio.
Em paralelo, o secretário do Tesouro americano indicou que Washington deve impor novas sanções secundárias ao Irã semanalmente, ampliando a pressão sobre a indústria petrolífera do país e adicionando incerteza ao equilíbrio global de oferta.
Os impactos concretos para o Brasil
Para operações de comércio exterior e logística no Brasil, a nova escalada produz efeitos em quatro frentes.
Diesel e frete rodoviário. O barril mais caro pressiona o preço do diesel no mercado interno, com reflexo direto nos custos de transporte rodoviário, modal responsável por mais de 60% da carga movimentada no país. Vale lembrar que o governo iniciou em julho a retirada gradual dos subsídios ao combustível, calibrada para um cenário de petróleo em queda. Uma alta sustentada pode forçar a reavaliação desse cronograma.
Querosene de aviação e frete aéreo. Este é um efeito menos comentado, mas de impacto expressivo: o querosene de aviação acumula alta de 53,3% em 2026, com elevação de 13,9% apenas em setembro. Para operações de importação e exportação por via aérea, especialmente cargas farmacêuticas, eletrônicos e perecíveis, esse componente de custo tende a se refletir em sobretaxas de combustível aplicadas pelas companhias cargueiras.
Fretes marítimos. O custo do bunker é componente relevante da estrutura de custos das armadoras. Em um mercado que já opera com congestionamento em nível recorde e capacidade apertada, a alta do combustível marítimo tende a se converter rapidamente em sobretaxas repassadas ao embarcador.
Prêmios de seguro marítimo. Ataques confirmados a embarcações comerciais elevam as taxas de seguro de guerra para rotas que transitam pelo Golfo Pérsico, encarecendo qualquer operação que utilize a região.
Há também um contraponto relevante: como exportador líquido de petróleo, o Brasil registra ganho de receita com o barril mais valorizado. O efeito líquido para a economia, no entanto, tende a ser inflacionário, como o país experimentou ao longo de todo o primeiro semestre.