Maersk anuncia sobretaxa para cargas saindo do Brasil
Diferentemente da maioria dos anúncios tarifários que acompanhamos ao longo de 2026, quase todos concentrados em rotas de importação com origem na Ásia, o novo pacote de sobretaxas da Maersk atinge diretamente o exportador brasileiro.
A companhia anunciou a introdução de uma Peak Season Surcharge (PSS) de até US$ 1.000 por contêiner para embarques originados no Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina, com vigência a partir de 8 de outubro de 2026. Em paralelo, adotou uma sobretaxa emergencial de combustível para operações terrestres em mercados nórdicos e bálticos, já em vigor desde 9 de setembro.
Para empresas com embarques programados para o último trimestre, o momento é de revisar cotações e recalcular margens.

O impacto direto sobre o exportador brasileiro
A sobretaxa sul-americana será aplicada a todos os tamanhos de contêineres dry e terá como referência a Price Calculation Date (PCD), a data utilizada pela Maersk para determinar qual tabela de preços é válida para cada embarque. Outras cobranças locais ou taxas contingenciais poderão continuar sendo aplicadas conforme a operação.
Duas rotas concentram o impacto
A mais onerosa é a que conecta o Brasil à Costa Oeste da América do Sul (Chile, Peru, Equador e Colômbia) com sobretaxa de US$ 1.000 por contêiner. Esse corredor é relevante para exportadores brasileiros de manufaturados, produtos químicos, alimentos processados e bens industriais que atendem os mercados andinos, frequentemente no âmbito de acordos comerciais regionais.
A segunda é a rota para o Caribe e a Costa do Golfo dos Estados Unidos, com adicional de US$ 500 por contêiner. Esse destino ganha relevância adicional no contexto atual: como abordamos em artigos recentes, exportadores brasileiros vêm buscando alternativas e ajustes de rota diante das tarifas americanas em vigor desde julho. Um custo adicional de frete nessa direção pressiona ainda mais margens já comprimidas pela carga tarifária.
Vale destacar o timing: a vigência a partir de 8 de outubro coincide com o período de maior movimentação do último trimestre, quando exportadores costumam concentrar embarques para atender demanda de fim de ano nos mercados de destino.
A sobretaxa europeia e sua origem: a crise do Oriente Médio
A segunda medida do pacote tem um componente causal que merece atenção de quem acompanha esta série de artigos. A Maersk passou a adotar uma Emergency Inland Fuel/Energy Surcharge para operações terrestres do tipo Store Door em mercados nórdicos e bálticos, atribuindo a decisão ao aumento dos preços dos combustíveis associado às interrupções no fornecimento provenientes do Oriente Médio.
Trata-se de uma linha direta entre o Estreito de Ormuz e o custo de entrega de um contêiner em Tallinn, Copenhague ou Estocolmo. O petróleo mais caro, que acompanhamos superar US$ 94 por barril no início de setembro, encarece o diesel europeu, que encarece o transporte rodoviário, que se converte em sobretaxa percentual na fatura do embarcador.
Os percentuais variam significativamente por país, refletindo diferenças nas matrizes energéticas e nos custos locais de combustível: a Estônia tem a maior cobrança, com 20%, seguida por Dinamarca (13%), Letônia (12%), Suécia (9%), Finlândia (5%) e Lituânia (4%). A Noruega aparece com percentual zero.
A sobretaxa se aplica aos embarques Store Door cuja PCD seja igual ou posterior a 9 de setembro, e permanece válida até novo aviso.
O detalhe mais interessante: caminhões elétricos e ferrovia ficam de fora
Há um aspecto desse anúncio que merece destaque analítico e que raramente aparece em coberturas sobre sobretaxas.
Soluções envolvendo caminhões elétricos e transporte ferroviário não serão afetadas pela cobrança emergencial. A exclusão é lógica, essas modalidades não dependem de combustíveis fósseis convencionais e, portanto, não sofreram a elevação de custo que motivou a taxa.
Mas a implicação prática vai além da lógica: pela primeira vez de forma tão explícita, a escolha por modais de baixo carbono se converte em vantagem financeira direta e imediata para o embarcador, e não apenas em ganho reputacional ou de conformidade ambiental.
Esse é um sinal relevante para o mercado. Em um cenário de volatilidade energética recorrente, que já dura seis meses e não dá sinais de resolução definitiva, alternativas elétricas e ferroviárias funcionam como um hedge natural contra choques de combustível. Empresas que já haviam migrado parte de suas operações terrestres para essas modalidades por razões ambientais colhem agora um benefício de custo que não estava no cálculo original.
É um argumento novo a favor da descarbonização logística, e provavelmente não será o último caso em que veremos essa dinâmica.
Revisão semanal: a volatilidade como regra operacional
A Maersk informou que os percentuais aplicados nos mercados nórdicos e bálticos serão revisados semanalmente, permitindo ajustes conforme a evolução dos custos de energia e das condições de abastecimento.
Essa periodicidade diz muito sobre o momento atual. Sobretaxas tradicionalmente eram anunciadas com vigência mensal ou trimestral. A adoção de revisão semanal indica que os armadores não conseguem mais projetar custos com horizonte confiável de médio prazo, e transferem essa incerteza para o embarcador na forma de cobranças móveis.
Para importadores e exportadores, isso significa que a cotação obtida hoje pode não valer daqui a sete dias. O planejamento de custos precisa incorporar essa mecânica.
O que exportadores devem fazer agora
Algumas ações são recomendáveis diante do novo quadro:
- Verificar a PCD dos embarques programados. Como a sobretaxa sul-americana vale para embarques com PCD a partir de 8 de outubro, operações que possam ser antecipadas para antes dessa data escapam da cobrança. Para volumes relevantes, a economia pode justificar o esforço de antecipação.
- Recalcular a precificação de contratos de exportação que envolvam as rotas afetadas, verificando quem absorve o custo adicional conforme o Incoterm negociado. Em vendas CIF ou CFR, o custo recai sobre o exportador brasileiro; em FOB, sobre o comprador no destino.
- Consultar alternativas de rota e armador. Anúncios de sobretaxa costumam ser seguidos por movimentos semelhantes de concorrentes, mas nem sempre na mesma magnitude ou no mesmo prazo. Comparar cotações antes da data de corte pode revelar diferenças relevantes.
- Para operações com destino ao Norte da Europa, avaliar a viabilidade de soluções ferroviárias ou com caminhões elétricos no trecho terrestre, que estão isentas da sobretaxa emergencial.
- Confirmar valores diretamente com o operador logístico antes de fechar embarques, dada a revisão semanal dos percentuais europeus.