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Novas regras no transporte marítimo de baterias de lítio

Novas regras no transporte marítimo de baterias de lítio

Uma demonstração divulgada pelo Lloyd’s Maritime Institute mostra a intensidade de um incêndio em bateria de íons de lítio e a dificuldade de controlá-lo. A fuga térmica, fenômeno que preocupa o transporte marítimo de veículos elétricos e de qualquer carga que contenha baterias, de eletrônicos e power banks a bicicletas e patinetes elétricos.

Para quem importa, o assunto deixou de ser apenas técnico: as regras de transporte dessas cargas mudaram em janeiro de 2026, e novas exigências de segurança a bordo estão em discussão na Organização Marítima Internacional (IMO).

O que é a fuga térmica

A fuga térmica é uma reação em cadeia: o aumento da temperatura no interior de uma bateria desencadeia reações químicas que produzem ainda mais calor e podem atingir outras células do equipamento. O processo libera grandes quantidades de calor, gases inflamáveis e fumaça tóxica.

Segundo a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA), o fenômeno pode ser provocado por danos físicos, superaquecimento, sobrecarga ou defeitos de fabricação, inclusive sem sinais prévios de falha.

O que torna o combate tão difícil é que apagar as chamas visíveis não significa que as reações internas pararam. Estudos da FAA indicam que a água e outros agentes aquosos têm maior capacidade de resfriamento do que agentes não aquosos em determinadas condições de teste, embora a estratégia ideal dependa do tipo de bateria e do ambiente do incêndio.

Por que o navio é um ambiente especialmente crítico

Em navios que transportam veículos ou contêineres, a combinação de fatores agrava o risco:

  • Proximidade entre as cargas, que facilita a propagação do calor.
  • Concentração de fumaça em espaços fechados.
  • Dificuldade de acesso aos compartimentos, que atrasa a identificação do foco e a atuação das equipes.

Em alto-mar não há reforço externo: a tripulação precisa conter o incêndio com os recursos que tem a bordo.

O que os testes em escala real mostraram

O projeto europeu LASH FIRE realizou, em março de 2022, no Centro de Treinamento Marítimo de Jovellanos (Espanha), testes em escala real com incêndios em veículos elétricos em condições semelhantes às de um navio. Foram três experimentos:

  1. Queima sem intervenção, para medir liberação de calor, fumaça e gases.
  2. Equipamentos de primeira resposta: extintores de CO2, pó químico e espuma, dispositivos de resfriamento e mantas de proteção.
  3. Incêndio em espaço fechado, semelhante ao convés de um navio Ro-Ro, onde a baixa visibilidade causada pela fumaça dificultou as operações.

Os resultados alimentaram procedimentos de resposta e treinamento de tripulações, e reforçaram um ponto central: identificar rapidamente o foco e impedir que o calor se propague para cargas vizinhas.

O que a IMO discute

Na sessão do Subcomitê de Sistemas e Equipamentos de Navios, foram debatidas medidas para melhorar a detecção e o combate a incêndios em porta-contêineres e a segurança de navios que transportam veículos com novas fontes de energia. Segundo a classificadora DNV, os avanços incluem:

  • Proposta de exigir equipamentos portáteis de imagem térmica para identificar pontos de aquecimento em contêineres.
  • Aperfeiçoamento dos requisitos para sistemas de combate com água nebulizada.
  • Prioridade para diretrizes provisórias de segurança contra incêndios em navios transportadores de automóveis e caminhões (PCTCs).

Essas propostas ainda dependem de novas etapas de aprovação. Para determinadas alterações em porta-contêineres, a expectativa é de entrada em vigor em janeiro de 2032. As discussões sobre medidas específicas para veículos elétricos continuam em 2027.

A regra que já vale: IMDG Code, Emenda 42-24

Enquanto as novas exigências de equipamento não chegam, uma mudança de classificação já está em vigor. Desde 1º de janeiro de 2026, a Emenda 42-24 do Código Marítimo Internacional de Mercadorias Perigosas (IMDG Code) é obrigatória e traz alterações importantes para cargas com bateria:

  • Carga Classificação na Emenda 42-24
  • Veículo movido a bateria de íons de lítio UN 3556
  • Veículo movido a bateria de lítio metálico UN 3557
  • Veículo movido a bateria de íons de sódio UN 3558
  • Baterias de íons de sódio UN 3551 e UN 3552

Os veículos com baterias instaladas passam a ser transportados conforme essas novas numerações, e não mais como UN 3171 (a antiga entrada genérica para veículos e equipamentos movidos a bateria). A atualização estabelece classificações específicas para as diferentes químicas e exige atenção dos operadores a identificação, documentação e movimentação dessas cargas.

O que isso significa para quem importa

A mudança atinge qualquer empresa que traga ao Brasil produtos com bateria: veículos elétricos e híbridos, bicicletas e patinetes elétricos, baterias avulsas, power banks, ferramentas e eletrônicos. Os pontos de atenção:

1. Classificação correta antes do embarque. O número UN declarado determina como a carga é aceita, estivada e documentada. Informação errada ou desatualizada pode levar à recusa da reserva ou à retenção da carga.

2. Declaração do embarcador. A responsabilidade pela declaração correta da mercadoria perigosa é de quem embarca. Falhas aqui podem gerar responsabilidade em caso de sinistro e discussões com seguradora e armador.

3. Política dos armadores. Cada companhia define suas condições de aceitação para cargas com baterias, e algumas impõem restrições ou exigências adicionais. Verificar antes de fechar o frete evita surpresas.

4. Seguro adequado. Cargas classificadas como perigosas costumam ter condições específicas de cobertura. Conferir se a apólice cobre o tipo de bateria transportado é parte da gestão de risco.

5. Fornecedor atualizado. Muitos exportadores asiáticos ainda usam a classificação antiga. Alinhar com o fornecedor, antes do embarque, o enquadramento conforme a Emenda 42-24 é uma etapa essencial.