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Imposto de importação sobe, mas arrecadação cai em fevereiro

Imposto de importação sobe, mas arrecadação cai em fevereiro

Em teoria, aumentar alíquotas de importação deveria gerar mais arrecadação. Na prática, fevereiro de 2026 mostrou que essa equação é bem mais complexa, e que variáveis como câmbio e volume de compras podem facilmente sobrepor o efeito de uma elevação tarifária. Os dados divulgados pela Receita Federal revelam um resultado que contrariou as expectativas do governo e acende um alerta importante para quem acompanha a política de comércio exterior brasileira.

O que o governo fez e o que esperava acontecer

Nos últimos meses, o governo brasileiro elevou o imposto de importação de aproximadamente mil produtos, com dois objetivos declarados: proteger a indústria nacional da concorrência externa e aumentar a arrecadação federal. A meta era ambiciosa, gerar R$ 14 bilhões adicionais em 2026 com a medida, valor relevante dentro do esforço de equilíbrio das contas públicas.

A lógica por trás da decisão é conhecida no comércio exterior: alíquotas mais altas encarecem produtos importados, tornam a produção nacional relativamente mais competitiva e, ao mesmo tempo, geram mais receita para os cofres públicos sobre cada unidade importada. Em condições estáveis de câmbio e volume de importações, essa matemática funciona. Fevereiro, porém, não ofereceu condições estáveis.

Os números que surpreenderam

Os dados da Receita Federal são diretos: a arrecadação com importações somou R$ 7,17 bilhões em fevereiro de 2026, ante R$ 7,4 bilhões no mesmo período de 2025, já com correção pela inflação. Isso representa uma queda real de 3,2%, um resultado frustrante para uma medida que tinha como objetivo exatamente o oposto.

Dois fatores explicam o resultado, segundo a própria Receita. O primeiro é a retração no volume de importações em dólar, que recuou 1,24% no período. O segundo, foi a queda de 9,8% na taxa de câmbio: com o dólar mais fraco frente ao real, o valor em reais das compras externas encolheu significativamente, reduzindo a base sobre a qual o imposto é calculado.

Em outras palavras: a alíquota ficou maior, mas incidiu sobre uma base menor, e o resultado líquido foi negativo.

A armadilha cambial da política tarifária

Esse episódio ilustra com clareza uma das principais armadilhas da política tarifária: a dependência do câmbio. O imposto de importação no Brasil é calculado sobre o valor aduaneiro da mercadoria em reais. Quando o dólar cai, o mesmo produto importado vale menos em moeda nacional, e gera menos imposto, independentemente da alíquota aplicada.

Uma variação cambial de quase 10% é suficiente para anular completamente o efeito de um aumento de alíquota na arrecadação, como os números de fevereiro demonstraram na prática. Isso não significa que a medida seja ineficaz em termos de proteção à indústria nacional, produtos importados mais caros em dólares podem perder competitividade frente aos nacionais mesmo com o câmbio favorável. Mas do ponto de vista arrecadatório, o resultado foi inequívoco: a estratégia não funcionou no curto prazo.

O argumento do governo: é cedo para concluir

A Receita Federal reconheceu o resultado, mas minimizou sua relevância como indicador do desempenho da medida. A posição oficial é de que apenas parte do reajuste entrou em vigor em fevereiro, enquanto o restante passou a valer no início de março, o que significa que os efeitos plenos das novas alíquotas ainda não foram sentidos nos números.

A projeção de R$ 14 bilhões adicionais em 2026 foi mantida, com a aposta de que os próximos meses, com o novo desenho tarifário plenamente em vigor, reverterão o resultado frustrante do bimestre inicial. A mensagem do governo é de paciência: o ano ainda está no começo.

Essa perspectiva tem fundamento. Políticas tarifárias raramente produzem efeitos imediatos e lineares, importadores ajustam seus fluxos de compra, negociam novos contratos e adaptam estoques ao longo de meses. O impacto real de uma elevação de alíquotas tende a se manifestar de forma mais clara apenas após um ciclo completo de operações.

O que muda para importadores na prática

Para empresas que importam regularmente, o cenário atual exige atenção a pelo menos três frentes simultâneas. A primeira é o monitoramento das alíquotas vigentes: com cerca de mil produtos com novas tarifas em vigor, é fundamental verificar se os produtos importados pela empresa foram afetados e em qual magnitude.

A segunda é o planejamento cambial: como os números de fevereiro deixaram claro, o câmbio pode ser tão ou mais determinante do que a alíquota no custo final de uma importação. Empresas que operam sem proteção cambial estão expostas a variações que podem tanto encarecer quanto baratear significativamente suas operações de um mês para o outro.

A terceira é a revisão de fornecedores e origens: em alguns casos, a elevação de alíquotas pode tornar fornecedores de determinados países menos competitivos do que alternativas de outras origens com tarifas distintas. Revisar a matriz de fornecimento à luz das novas tarifas pode revelar oportunidades de redução de custo que não eram visíveis antes da mudança.

Um cenário em movimento

O episódio do imposto de importação em fevereiro é mais um capítulo de um cenário tarifário que permanece em constante movimento no Brasil. Nos últimos meses, o país viu alíquotas subindo para mil produtos, sendo revertidas para eletrônicos após pressão política e do setor privado, e agora enfrenta os primeiros resultados concretos de uma política que ainda está sendo calibrada.

Para o comércio exterior brasileiro, esse ambiente de instabilidade regulatória reforça um princípio fundamental: planejar com antecedência, monitorar continuamente e contar com parceiros especializados são os pilares que separam operações resilientes de operações vulneráveis a choques.