Governo eleva subsídio ao diesel importado para R$ 3,52 por litro
Desde julho, houve o início da retirada gradual dos subsídios emergenciais ao diesel, calibrada para um cenário de petróleo em queda. Porém foi alertado que uma nova alta do barril poderia forçar a reavaliação do cronograma. Três meses depois, o movimento se inverteu: no dia 9 de outubro de 2026, o governo federal anunciou um reforço de R$ 1,40 por litro na subvenção ao diesel rodoviário importado, que passa a R$ 3,52 por litro durante os próximos 30 dias.
Para o transporte rodoviário de cargas, responsável por mais de 60% da movimentação de mercadorias no país, e para quem depende dele no comércio exterior, a decisão revela uma vulnerabilidade que nenhum pacote emergencial resolve sozinho: o Brasil ainda depende do diesel importado.
O que foi anunciado
O novo incentivo se soma aos R$ 2,12 por litro que já valem para o mercado em geral, e é exclusivo do diesel importado. O custo estimado do reforço é de R$ 1,6 bilhão no período de 30 dias. O subsídio é destinado aos importadores, e seus efeitos nos preços das bombas dependerão das condições de comercialização e da evolução do mercado.
O reforço integra um pacote de R$ 5,2 bilhões que também inclui:
- Gasolina: a desoneração de tributos federais sobe de R$ 0,63 para R$ 0,89 por litro.
- Etanol: manutenção da desoneração de R$ 0,19 por litro do hidratado e elevação do subsídio ao produtor de R$ 0,25 para R$ 0,43 por litro.
Os R$ 5,2 bilhões somam valores de períodos e mecanismos distintos, e todas as medidas são temporárias, limitadas a 2026 e passíveis de revisão conforme os preços internacionais e a disponibilidade orçamentária.
Em paralelo, a Medida Provisória nº 1.395, de 8 de outubro, abriu um crédito extraordinário de R$ 7,52 bilhões para o Ministério de Minas e Energia: R$ 6,17 bilhões para a subvenção à produção e à importação de diesel rodoviário e R$ 1,35 bilhão para outros derivados.
Por que subsidiar a importação, e não só o preço na bomba
O desenho tem uma lógica de abastecimento. O objetivo do incentivo é manter economicamente viáveis as compras de diesel no exterior. Quando os custos internacionais sobem demais, o importador pode reduzir o volume trazido ao país, e a oferta doméstica passa a depender de uma produção que não cobre toda a demanda.
O risco não é teórico. Segundo a cobertura do setor, o Rio Grande do Sul já havia enfrentado aperto no abastecimento em setembro, quando as importações perderam ritmo e a regulamentação de um subsídio anterior atrasou. Um episódio regional mostra como uma falha de timing na cadeia de importação pode chegar rapidamente à ponta.
O paradoxo: diesel sobe mesmo com o Brent em queda
Um dado merece atenção. Segundo o índice IPC.MLog, o litro do diesel era vendido a R$ 7,17 em 6 de outubro, com alta de 6,4% nos 30 dias anteriores. No mesmo intervalo, o Brent acumulou queda de 3,3%, embora seguisse perto de US$ 100 por barril.
Isso mostra que o preço do diesel não depende só do petróleo bruto. Como discutimos no artigo sobre o petróleo a US$ 94, a capacidade de refino e as margens dos derivados também pesam: ataques a refinarias e restrições de processamento elevaram as margens dos produtos refinados a níveis recordes. Em um mercado em que o diesel importado compete por oferta global limitada, o custo do derivado pode subir mesmo quando o barril recua.
A dependência é estrutural: o que diz o PDE 2036
O ponto mais importante da notícia está no planejamento de longo prazo. A proposta do Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2036), elaborada pelo Ministério de Minas e Energia e pela Empresa de Pesquisa Energética, projeta que aproximadamente 25% do diesel A consumido no Brasil ainda virá do exterior em 2036. Os principais números:
- Indicador Projeção para 2036
- Importações líquidas de diesel 51 mil m³/dia
- Demanda estimada 206 mil m³/dia
- Produção nacional 155,2 mil m³/dia (alta de 13,7% sobre os 136,5 mil atuais)
- Participação do diesel importado ~25% (contra ~22% estimados para 2026)
- Investimento em refino até 2036 US$ 13,15 bilhões
- Aumento da capacidade de destilação ~10% (sete refinarias existentes e uma nova unidade, ~248 mil barris/dia)
- Utilização das refinarias Próxima de 90%
- Déficit de derivados 37 mil m³/dia
A dependência cresce mesmo com a produção aumentando, porque o consumo avança mais rápido, impulsionado pela atividade econômica e pela elevada participação das rodovias na logística de cargas. É o mesmo argumento que sustenta a tese central do artigo sobre os custos logísticos de 15,5% do PIB: a matriz concentrada em caminhões é também uma exposição energética.
O plano, em consulta pública até 6 de novembro, reconhece que as medidas emergenciais de 2026 respondem às dificuldades imediatas, mas não eliminam a exposição às importações. Para enfrentá-la, aponta investimentos em refino e logística, diversificação de fornecedores e alternativas ao consumo de derivados.
O efeito sobre o frete rodoviário
Para quem contrata transporte, três pontos de atenção:
1. A tabela do piso mínimo pode ser acionada. A Lei nº 13.703/2018 determina que a ANTT atualize o piso do frete a cada seis meses ou sempre que a variação do diesel atingir ou ultrapassar 5%. Uma alta de 6,4% em 30 dias está acima desse patamar, o que pode pressionar uma nova revisão. Como a MP do Frete reforçou a fiscalização via CIOT, valores abaixo do piso tendem a ser bloqueados.
2. O subsídio é temporário. O reforço vale por 30 dias e pode ser revisto. Contratos de frete precificados com base no diesel subsidiado carregam o risco de um reajuste quando o benefício acabar.
3. O repasse não é automático. O subsídio vai ao importador. Quanto chega ao preço final depende das condições de mercado.