Crise na Venezuela após captura de Maduro pode afetar comércio para o Brasil
O impacto da recente operação militar dos Estados Unidos na Venezuela continua reverberando na política e no mercado internacional. Em uma ação inédita desde a invasão do Panamá em 1989, forças americanas capturaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa em uma operação em Caracas, em 3 de janeiro, e os levaram para os Estados Unidos, onde enfrentarão acusações federais nos tribunais de Nova York.
A extraordinária intervenção gerou turbulência política na Venezuela e levantou incertezas sobre o futuro do país sul-americano, que detém uma das maiores reservas de petróleo do mundo e é vizinho estratégico do Brasil. No contexto interno venezuelano, a vice-presidente Delcy Rodríguez foi empossada como presidente interina, apoiada pelas forças armadas do país, enquanto líderes da oposição e aliados internacionais continuam disputando legitimidade e autoridade.
Brasil enxerga oportunidade de expandir comércio de petróleo e produtos manufaturados
Para o Brasil, autoridades e analistas do Ministério das Relações Exteriores avaliam que a crise pode abrir espaço para uma reconfiguração dos fluxos comerciais na região, especialmente no mercado de petróleo e derivados.
Tradicionalmente, a China é a principal compradora do petróleo venezuelano, respondendo por cerca de 45% das exportações do país, além de ser também grande importadora de petróleo bruto brasileiro.
Com as incertezas sobre a produção e a reestruturação do setor energético venezuelano, o Brasil poderia aumentar as exportações de petróleo e derivados para a China e outros mercados asiáticos, aproveitando sua robusta capacidade de produção e infraestrutura logística. A Estratégia de cooperação energética pode beneficiar empresas brasileiras, inclusive em um momento de realinhamento de contratos e cadeias globais de oferta.
Por outro lado, os Estados Unidos também figuram como um importante comprador de derivados brasileiros. No entanto, dados recentes indicam que a participação norte-americana vinha apresentando sinais de queda nos últimos trimestres, tendência que pode se intensificar com o aumento da influência energética e diplomática em Caracas após a operação militar.
Setores além do petróleo podem ganhar espaço
Analistas do setor apontam ainda que uma mudança no cenário político venezuelano pode facilitar a retomada de exportações brasileiras de produtos manufaturados e de maior valor agregado.
Setores como a indústria automotiva que já exportou veículos para a Venezuela em períodos de estabilidade, podem voltar a ganhar espaço caso a economia venezuelana estabilize sob nova gestão.
Da mesma forma, segmentos como madeira e papel, que enfrentaram dificuldades recentes sobretudo após o ?tarifaço? dos EUA, podem encontrar novos mercados na Venezuela, reforçando a presença brasileira na cadeia produtiva regional.
Riscos políticos e comerciais ainda predominam
Apesar das possibilidades econômicas, especialistas alertam que a captura de Maduro e a atual crise não garantem uma transição política rápida ou estável na Venezuela. A oposição democrática continua fragilizada, e a legitimidade de líderes interinos segue contestada, o que pode prolongar a incerteza sobre políticas econômicas e investimentos externos.
Além disso, a operação dos EUA gerou debates intensos sobre legalidade internacional, soberania e o futuro das relações diplomáticas na região, fatores que influenciam diretamente as perspectivas comerciais e os riscos de longo prazo.