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Brasil suspende importação de cacau da Costa do Marfim por risco fitossanitário

Brasil suspende importação de cacau da Costa do Marfim por risco fitossanitário

O Brasil tomou uma medida incomum e de grande impacto para o mercado de cacau: o Ministério da Agricultura suspendeu, de forma imediata e temporária, as importações de amêndoas de cacau originárias da Costa do Marfim. A decisão foi publicada no Diário Oficial da União na terça-feira, 24 de fevereiro de 2026, e valerá enquanto o país africano não apresentar garantias formais sobre a origem dos grãos exportados ao Brasil. Para quem atua no comércio exterior, especialmente no segmento de agronegócio e importação de commodities, o episódio ilustra como questões fitossanitárias podem interromper fluxos comerciais consolidados da noite para o dia.

Por que a importação foi suspensa?

O gatilho para a suspensão foi uma avaliação técnica que identificou riscos de triangulação comercial nas exportações de cacau da Costa do Marfim para o Brasil. Na prática, grãos de países vizinhos (Gana, Guiné e Libéria) poderiam estar sendo misturados ao cacau marfinense antes do embarque com destino ao mercado brasileiro.

O problema é que Libéria e Guiné não possuem autorização sanitária para exportar cacau ao Brasil. Se grãos desses países estiverem sendo incorporados às cargas, existe risco concreto de entrada de pragas e doenças que ameaçariam tanto a produção nacional quanto outras culturas agrícolas. A triangulação comercial, prática em que um produto passa por um país intermediário para contornar restrições de acesso a determinados mercados, é um dos principais desafios para as autoridades fitossanitárias ao redor do mundo.

O peso da Costa do Marfim nas importações brasileiras

A Costa do Marfim é o maior produtor mundial de cacau e respondeu por 81% das importações brasileiras do grão em 2025, totalizando cerca de 42 mil toneladas. Esse grau de concentração em um único fornecedor é um sinal de alerta do ponto de vista da gestão de risco em cadeias de suprimento.

Embora o Brasil produza cacau, cerca de 186 mil toneladas em 2025, lideradas pelo Pará, a demanda da indústria processadora supera a produção interna, tornando a importação indispensável para o abastecimento do setor.

Proteção ao produtor nacional

A suspensão também atende a uma reivindicação articulada pelos produtores rurais brasileiros. A entrada de grãos de países não autorizados poderia comprometer anos de trabalho de controle de pragas na cacauicultura nacional. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) apoiou publicamente a medida como uma ação importante de proteção ao setor.

A preocupação da indústria processadora

Nem todos receberam a notícia com alívio. A Associação das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC) manifestou preocupação e pediu que qualquer decisão seja baseada estritamente em critérios técnicos e científicos. Com 81% do cacau importado vindo de um único país, a interrupção coloca em risco o abastecimento de fábricas de chocolate, manteiga de cacau e outros derivados. Encontrar fornecedores alternativos em volume e qualidade equivalentes não é tarefa simples nem rápida, e esse embate entre proteção fitossanitária e continuidade operacional da indústria é um dos dilemas clássicos das políticas de comércio exterior.

Lições para a gestão de risco no comércio exterior

O episódio traz reflexões importantes para empresas que importam commodities agrícolas. A concentração excessiva em um único fornecedor é um risco real, diversificar fontes de suprimento, mesmo com custo ligeiramente maior, é uma prática que pode evitar interrupções críticas. Manter-se atualizado sobre autorizações sanitárias vigentes para cada país de origem é igualmente indispensável. Contar com parceiros logísticos experientes, que monitoram as mudanças regulatórias do mercado internacional, é um diferencial estratégico que faz a diferença em momentos como este.