Impactos para o Brasil e para o comércio exterior causados pelo conflito no Oriente Médio
O agravamento das tensões no Oriente Médio, intensificado pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, está gerando ondas de impacto que chegam diretamente ao comércio exterior brasileiro. Petróleo, agronegócio, fretes marítimos, rotas logísticas e até a política de juros do país estão na lista de variáveis afetadas. O cenário é complexo, com efeitos que podem ser tanto positivos quanto negativos para o Brasil, dependendo do setor e da duração do conflito.
O Oriente Médio e o Brasil: uma relação comercial de peso
Antes de analisar os impactos, é importante entender o tamanho dessa relação comercial. As exportações brasileiras ao Oriente Médio totalizaram US$ 16,1 bilhões em 2025, o equivalente a 4,6% de todas as vendas do Brasil a outros países. Do lado das importações, os brasileiros importaram US$ 7,1 bilhões do Oriente Médio, o equivalente a 2,5% das compras totais.
Não se trata, portanto, de uma relação marginal. O Oriente Médio é um mercado relevante para o agronegócio brasileiro e uma fonte importante de insumos estratégicos, especialmente fertilizantes.
O agronegócio brasileiro na linha de frente
O setor que mais sente o impacto imediato do conflito é o agronegócio. Países da região são grandes compradores de commodities alimentares brasileiras, e qualquer instabilidade política ou logística nesse mercado afeta diretamente os volumes e preços das exportações.
Os números revelam a dependência: o Oriente Médio recebeu US$ 3 bilhões em carne de frango no ano passado, o equivalente a 34,8% de todas as vendas brasileiras do produto. No caso do milho, cujas vendas à região somaram US$ 2,7 bilhões, 32,4% das exportações totais do cereal. Em terceiro lugar, está o açúcar, com 16,8% do total exportado do produto.
Em outras palavras, um terço das exportações brasileiras de frango e milho tem como destino uma região em conflito. Países do Oriente Médio são importantes compradores de alimentos brasileiros, como carne de frango, milho, açúcar e produtos halal. A interrupção ou redução dessas compras, ainda que temporária, teria impacto direto na balança comercial e nos preços pagos ao produtor rural brasileiro.
A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) já se mobilizou diante desse cenário. A entidade afirmou estar mapeando os pontos críticos à logística na região e considerando alternativas de transporte, analisando rotas que foram utilizadas em outras ocasiões de crises.
Petróleo: onde o Brasil pode sair ganhando
Nem tudo são más notícias. O Brasil ocupa uma posição privilegiada no mercado global de petróleo, é um exportador líquido do produto, e conflitos que pressionam os preços internacionais tendem a beneficiar as receitas brasileiras nesse setor.
Conflitos na região costumam pressionar o preço do petróleo no mercado internacional, o que tende a beneficiar o Brasil. À medida que o preço do petróleo sobe, o saldo do comércio de combustíveis tende a aumentar, segundo o diretor de Estatísticas e Estudos de Comércio Exterior do MDIC. Na esteira do conflito, as ações da Petrobras subiram cerca de 4%, refletindo a expectativa do mercado quanto a receitas maiores com o barril mais valorizado.
No entanto, esse ganho tem um lado oposto: para exportadores de petróleo como a Petrobras, há ganho de receita, mas o efeito líquido para a economia tende a ser inflacionário.
O risco para os fertilizantes
Um ponto que merece atenção especial é a dependência brasileira de fertilizantes importados do Oriente Médio. Os fertilizantes estão entre os itens mais relevantes nas importações brasileiras da região, com US$ 2,2 bilhões adquiridos no ano passado, o equivalente a 14,4% do total importado do produto.
O Brasil é um dos maiores produtores agrícolas do mundo, mas depende fortemente de fertilizantes importados para sustentar essa produção. Qualquer interrupção no fornecimento ou elevação significativa nos preços desses insumos tem efeito cascata sobre os custos de produção do agronegócio e, em última instância, sobre os preços dos alimentos.
Rotas marítimas e logística internacional sob pressão
O conflito também impacta diretamente as rotas logísticas que conectam o Brasil ao Oriente Médio e à Ásia. A instabilidade no Golfo encarece seguros marítimos e reorganiza rotas portuárias e conexões internacionais, com companhias evitando hubs como Dubai, Doha e Abu Dhabi.
O Estreito de Ormuz, por onde passa uma parcela significativa do tráfego de petróleo e mercadorias do mundo, é um ponto crítico nesse cenário. O controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz pressiona o fluxo global de petróleo e tende a elevar prêmios de risco. Já houve relatos de atrasos em cargas aéreas e marítimas na região, o que afeta prazos de entrega e custos operacionais de empresas que dependem dessas rotas.
Impacto nos juros e na economia brasileira
Os efeitos do conflito não se limitam ao comércio exterior, eles chegam à política econômica doméstica. Com pressão inflacionária gerada pela alta do petróleo, o Banco Central do Brasil pode ser levado a manter os juros elevados por mais tempo, com impacto sobre a atividade econômica e o custo do crédito. Esse é um cenário especialmente delicado, pois o Brasil vinha buscando reduzir gradualmente a taxa Selic. Uma reversão dessa tendência, provocada por fatores geopolíticos externos, teria consequências para empresas importadoras e exportadoras que dependem de crédito para financiar suas operações.
O que esperar nos próximos meses?
O cenário ainda é volátil e muito depende da duração e intensidade do conflito. Um eventual impacto negativo nas vendas de alimentos ao Oriente Médio deve ser temporário, a demanda por alimentos nesses países não vai desaparecer e os fluxos tendem a se normalizar, segundo o MDIC.
Para as empresas que operam no comércio exterior, o momento exige monitoramento constante, flexibilidade operacional e parceiros logísticos capazes de adaptar rotas e soluções rapidamente diante de um cenário em mudança.