Exportações brasileiras para os EUA caem pelo sétimo mês consecutivo
Os dados do comércio bilateral entre Brasil e Estados Unidos em fevereiro de 2026 confirmam uma tendência que já vinha se desenhando há meses: as exportações brasileiras para o mercado americano registraram queda pelo sétimo mês consecutivo, consolidando o pior ciclo de retração dos últimos anos na relação comercial entre os dois países. Os números, divulgados pelo Monitor do Comércio Brasil-EUA da Amcham Brasil, revelam não apenas o impacto das sobretaxas aplicadas pelos EUA, mas também pressões que vão além das tarifas, e que merecem atenção de todos os que atuam no comércio exterior brasileiro.
Os números que preocupam
Em fevereiro de 2026, as vendas brasileiras para os Estados Unidos somaram US$ 2,5 bilhões, representando uma queda de 20,3% em relação ao mesmo período do ano anterior. No acumulado do bimestre janeiro-fevereiro, as exportações totalizaram US$ 4,9 bilhões, uma retração de 23,2% em relação ao mesmo período de 2025, marcando o pior início de ano desde 2023.
O ciclo de quedas consecutivas teve início em agosto de 2025, quando os Estados Unidos aplicaram sobretaxas de 40% a 50% sobre produtos brasileiros, medidas que foram posteriormente derrubadas pela Suprema Corte americana no final de fevereiro de 2026.
Os produtos mais afetados: surpresas além das tarifas
A análise por produto revela um dado que vai além do esperado. O petróleo bruto registrou a queda mais expressiva: 80,7%, um número chocante para um produto que, vale destacar, estava isento das sobretaxas americanas. Os combustíveis derivados também recuaram de forma expressiva, com queda de 42,2%, igualmente fora do alcance das tarifas.
O café, outro produto historicamente forte nas exportações brasileiras para os EUA, surpreendeu negativamente com uma retração de 40%.
O fato de que petróleo bruto e derivados (isentos de sobretaxas) registraram quedas tão expressivas é um sinal importante: as pressões sobre as exportações brasileiras não se explicam apenas pelas tarifas. Fatores como a valorização do dólar, a volatilidade do mercado de energia provocada pelo conflito no Oriente Médio, mudanças na demanda americana e decisões estratégicas das empresas do setor energético também pesam na equação, e precisam ser monitorados com a mesma atenção dedicada ao cenário tarifário.
Uma luz no fim do túnel: a decisão da Suprema Corte americana
Há uma perspectiva positiva no horizonte. No final de fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou as sobretaxas elevadas que pesavam sobre os produtos brasileiros,as tarifas de 40% a 50% que marcaram o início do ciclo de quedas em agosto de 2025. Em seu lugar, foi adotada uma tarifa global de 10%, aplicada de forma uniforme a todos os países.
Para o Brasil, essa mudança representa uma melhora significativa nas condições de acesso ao mercado americano, especialmente para os produtos que foram mais duramente penalizados pelas sobretaxas anteriores. O Brasil foi apontado como um dos maiores beneficiados pela nova configuração tarifária.
No entanto, os efeitos dessa mudança ainda não apareceram nos dados de fevereiro, o que é esperado, dado que a decisão ocorreu apenas no final do mês. A expectativa é que os números de março e abril de 2026 já comecem a refletir uma recuperação gradual das exportações brasileiras para os EUA, especialmente nos setores que estavam mais expostos às sobretaxas anteriores.
O que isso significa para exportadores brasileiros
Para empresas que exportam para os Estados Unidos, ou que pretendem iniciar ou ampliar operações nesse mercado, o momento é de cautela estratégica combinada com atenção às oportunidades que começam a surgir.
A queda de sete meses consecutivos deixa claro que o mercado americano passou por uma reconfiguração importante nas suas relações com o Brasil. Compradores americanos buscaram alternativas de fornecimento durante o período de sobretaxas elevadas, e nem todos retornarão automaticamente ao Brasil com a redução das tarifas. Reconquistar esses compradores exigirá esforço comercial ativo, competitividade de preço e, acima de tudo, confiabilidade logística.
Por outro lado, a nova tarifa uniforme de 10% coloca o Brasil em condições mais equilibradas frente a outros países exportadores que também pagam essa alíquota, o que representa uma oportunidade real de recuperação de market share no médio prazo.