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Crise logística no Brasil ameaça a competitividade do agronegócio e do comércio exterior

Crise logística no Brasil ameaça a competitividade do agronegócio e do comércio exterior

O Brasil é um dos maiores exportadores agrícolas do mundo, mas carrega um peso invisível que corrói essa vantagem competitiva todos os dias. Segundo o estudo "Custos logísticos e o impacto nas empresas brasileiras", os gastos com transporte e distribuição no país atingiram R$ 1,96 trilhão em 2025, o equivalente a 15,5% do PIB. Em países com infraestrutura desenvolvida, esse índice fica entre 8% e 12%, o Brasil opera com uma ineficiência que pode chegar ao dobro desse padrão.

Esse excesso de custo não é abstrato: ele se traduz em margens menores para produtores, preços mais altos para o consumidor e produtos brasileiros que chegam ao mercado internacional já em desvantagem competitiva, antes de qualquer negociação tarifária ou disputa comercial.

A armadilha do modal rodoviário

A raiz do problema está na dependência excessiva do transporte rodoviário, que responde por mais de 60% de toda a carga movimentada no Brasil. Caminhões são o modal mais caro para longas distâncias e grandes volumes, e no Brasil, as distâncias são imensas.

A soja produzida no Mato Grosso, por exemplo, percorre mais de 2.000 quilômetros em caminhões movidos a diesel até chegar aos portos de exportação. Esse combustível é diretamente impactado pelas oscilações do mercado internacional de petróleo e, como temos acompanhado, o conflito no Oriente Médio e as tensões no Estreito de Ormuz estão agravando essa vulnerabilidade estrutural. Diesel mais caro eleva o frete, frete mais alto corrói a margem do produtor, margem menor reduz a competitividade da exportação brasileira. É um ciclo que se retroalimenta.

Hidrovias e ferrovias: o potencial que o Brasil ainda não aproveitou

O paradoxo mais frustrante é que o Brasil possui, em abundância, os recursos para ser muito mais eficiente, e simplesmente não os utiliza de forma adequada.
O país tem uma das maiores redes hidrográficas do mundo, com milhares de quilômetros de rios navegáveis cronicamente subutilizados. O transporte hidroviário é historicamente o mais barato para grandes volumes de commodities, e países como os Estados Unidos e a Holanda constroem boa parte de sua competitividade logística exatamente sobre essa base.

O mesmo vale para as ferrovias. O modal ferroviário é ideal para longas distâncias e grandes volumes, exatamente o perfil do agronegócio brasileiro. Enquanto Estados Unidos e Austrália dispõem de redes ferroviárias que penetram profundamente nas regiões produtoras, o Brasil ainda depende de caminhões para percursos que, em outros países, são feitos por trens a um custo muito menor.

O impacto direto no comércio exterior

Para empresas que operam no comércio exterior, essa ineficiência é sentida de forma concreta. Custos internos elevados reduzem a margem disponível para absorver variações de câmbio, fretes internacionais e tarifas aduaneiras. E a dependência do diesel torna as exportações brasileiras especialmente vulneráveis a choques externos, como o que vivemos agora com a crise no Oriente Médio.

Diversificar os modais de transporte e investir em inovação logística não é apenas uma agenda de infraestrutura, é uma estratégia urgente para reduzir custos, aumentar a competitividade e proteger a economia brasileira de turbulências externas que, como temos visto, podem surgir a qualquer momento.